Bird Box e a incrível máquina de aprofundar o desnecessário

Sandra Bullock levando a criançada pra “passear”

Finalmente assisti ao novo fenômeno da internet: Bird Box, com Sandra Bullock.

Como existem dezenas de textos falando sobre isso – principalmente nas redes sociais – tentarei ser breve na minha análise como cinéfilo.

Bird Box é um ótimo filme da Netflix; com ótimos atores, ótima direção, ótima fotografia, e com um roteiro que deixa a desejar. Calma, que eu explico: o filme trata de uma situação relativamente nova (algumas outras obras também retratam situações semelhantes, como Ensaio Sobre a Cegueira, e Um Lugar Silencioso). Ainda por cima, existem alguns elementos clássicos que qualquer filme apocalíptico possui – isso, claro, não diminui em nada a qualidade e os elementos originais dele, que tem lá seu próprio sabor.

O que peca, pra mim, é a conclusão do filme.
O final é um tanto quanto preguiçoso, mal elaborado, e desnecessariamente sem sentido. É uma ficção? Sim. Mas até mesmo uma ficção precisa fazer sentido dentro de seu próprio contexto, e o final dele simplesmente não contextualiza isso.

Mas deixemos isso para o último item que deixarei no texto; vou fazer a análise do enredo do filme em si, para tentar elucidar um pouco as dúvidas de quem passou a noite em claro tentando juntar os pontos da trama.

Eu evito fazer análises de filmes, porque a internet é a terra dos palpiteiros, e esse tipo de texto existe às dúzias. Mas como percebi que existe muita dúvida, e tem muita gente falando besteira por aí, resolvi dar meus pitacos também. Acho que a melhor forma de fazer isso são respondendo por tópicos, então lá vai:

1 – O que são os seres do filme?
R: Até que se prove o contrário, são o que você quiser que seja. Como não foi delimitado em momento nenhum alguma característica que pudesse de fato afirmar a procedência dos seres, eles podem ser qualquer coisa. Se o diretor ou roteirista falar amanhã que são aliens, então são aliens. Se falarem que são espíritos, então são espíritos. Se forem seres místicos, o raciocínio é o mesmo. O filme te dá liberdade para imaginar qualquer uma dessas possibilidades.
Por esse mesmo motivo eu darei o meu parecer, e os motivos que me levaram a crer nisso: para mim são seres espirituais ou até mesmo demônios. Os motivos que tenho para acreditar nisso são vários: a contaminação pelos olhos (explicarei na próxima pergunta), a invisibilidade, a materialização (eles não são imaginários, sendo que até mesmo as folhas que passam por eles desviam de seu caminho), a facilidade de mexer com a mente das pessoas, a força, a quantidade, a facilidade de locomoção de um país a outro, os sintomas, por aí vai.

2 – Porque as pessoas não podem olhar para os seres?
R: Como diria o ditado popular: os olhos são as janelas da alma. Nesse filme, esse ditado faz mais sentido ainda. Teoricamente, o ser humano é constituído de três elementos: corpo, alma e espírito. O corpo, que é o físico; o espírito que é a vida, e a alma que é a nossa parcela sentimental.
Quando a pessoa olha para os seres, vê seus maiores medos e arrependimentos encarnados naquele ser, o ser se molda de pessoa a pessoa. Essa manifestação do medo pode ser tanto individual como coletiva.
Quando a pessoa enxerga aquele medo, ela abre a porta para que sua tristeza mais profunda tome conta dela, o que a faz se suicidar logo em seguida.
A única coisa capaz de manter por uma fração de segundo a incontrolável vontade de se matar é o amor. Piegas? Sim, mas é o que o filme demonstra quando Olympia não pula de imediato da janela, para que Melanie salvasse sua filha, e também quando Tom – apesar de já estar infectado – resiste por um segundo ao anseio de sua morte e salva a protagonista e as crianças do último louco infectado, para depois também dar fim à própria vida.

3 – Porque os pássaros são importantes?
R: Essa resposta vai deixar muita gente brava comigo, mas os pássaros são menos importantes do que parecem. Alguns andam dizendo por aí que os pássaros representam liberdade, e tentam qualificar a presença deles das formas mais profundas possíveis. Calma lá, pessoal. O filme não é tão pretensioso assim. Bird Box, além de ser o nome do filme, é também o nome americano para aquelas casinhas de pássaro em que se coloca fora das residências. Tipo essa daqui:

Uma “bird box”, ou se preferir: casa de pássaros, em tradução não literal.

Acontece que existe sim uma ligação entre os pássaros e as pessoas, mas ela é bem menos complexa do que a maioria das pessoas gostariam: da mesma forma que os pássaros estão presos dentro da caixa e da gaiola, as pessoas também estão na mesma situação. Somente no final os pássaros trocam de lugar com os protagonistas; sendo que eles são libertos, e as pessoas que restaram ficam enclausuradas.
Um momento que ilustra bem essa conexão entre humanos e pássaros é quando a protagonista, Melanie (Sandra Bullock) os encontra no mercado e expressa sua surpresa em encontrá-los vivos. As criaturas do filme poderiam dizer o mesmo sobre os humanos que restaram.
O grande diferencial dos pássaros mesmo é que eles percebem a presença dos seres malignos, e acabam sendo usados como uma espécie de “alarme” pela protagonista.

4 – Porque algumas pessoas são afetadas de forma diferente pelas criaturas?
R:
Simplesmente porque elas são loucas. Existem dois momentos em que o filme nos dá essas pistas. A primeira pista é quando alguns dos sobreviventes vão até o mercado onde Charlie trabalhava e são apresentados brevemente a um personagem com apelido de “dedo de peixe”, o rapaz que trabalhava no setor da peixaria do mercado. Charlie explica que conhecia aquele personagem, e que apesar de não bater muito bem da cabeça, sempre foi gentil com ele.
O segundo momento que atesta o que digo, é quando Gary aparece, explicando que ele fora atacado por internos de Northwood, um sanatório para criminosos loucos – que começaram a fazer com que as pessoas olhassem para as criaturas – e Gary consegue escapar no calor do momento. De várias suposições que podem ser feitas sobre essa história é que provavelmente Gary era um desses internos.
Pessoas loucas não tem medo racional profundo, então o efeito das criaturas nelas é diferente. Ao invés de ver um medo profundo, enxergam algo lindo que faz com que queiram que todos vejam o mesmo.

5 – Porque tanta ênfase nas crianças?
R:
Na verdade, a ênfase maior das crianças é por conta do maior medo de Melanie: que algo acontecesse com seu filho. Tanto que recentemente Andy Berghotz, designer do filme – publicou em seu instagram como seriam algumas das criaturas do longa, e que acabaram sendo cortadas da edição final. Existe um desejo das criaturas e de Gary que as crianças enxergassem os seres sobrenaturais, mas não é muito diferente do desejo que os mesmos tem para com os adultos. Vale ressaltar que as crianças também podem ouvir as criaturas, da mesma forma que as pessoas mais velhas, como demonstra os momentos finais do filme.
Em momento algum existe prova de que elas são imunes ou algo do tipo.

6 – Porque os cegos são imunes? Porque o final é ruim (na minha opinião)?
R:
Sobre os cegos serem imunes, é muito simples: só é possível ser infectado através dos olhos. Uma vez que os cegos não enxergam, fim de papo. Não é possível vislumbrar o maior medo deles. Mas isso não os torna intocáveis aos loucos infectados. Melhor então ficar isolado.
Por fim, o filme tem um final terrível e preguiçoso. A impressão que tenho é que se empenharam muito para fazer o enredo, e talvez por falta de verba ou tempo, decidiram correr com um final que ao meu ver não tem nem pé nem cabeça.
Melanie acaba chegando ao final de sua jornada: uma escola enorme, limpa, com manutenção bem feita, teoricamente com muita comida, muitas pessoas e animais convivendo tranquilamente, com roupas limpas, e tudo o mais. Simplesmente um oásis no meio do deserto. Um paraíso em meio ao caos.
A pergunta que fica é: como que, depois de anos, esse local se mantém de pé com todas essas regalias? Como tudo permanece tão arrumado, limpo e sustentável? Em momento algum há uma explicação ou sequer um indício plausível para isso. Até mesmo a médica de Melanie está lá, convenientemente.

O final acaba dando muita informação, e pouca explicação, destruindo assim toda a expectativa que o filme nos trás, toda a espera em vão, todo o interesse em ver um plot vai por algo abaixo.